No âmbito das revoluções tecnológicas e das inovações nos meios de comunicação a que temos vindo a assistir nos últimos anos, os media ganharam um lugar de destaque importantíssimo, assumindo o papel de grandes contadores de histórias e de influenciadores políticos das Relações Internacionais no século XXI. Graças à emergência do soft power em detrimento do hard power convencional, os media encontraram nas suas plataformas um instrumento de propagação de ideias, convicções e opiniões que consequentemente poderão representar um grande peso nas grandes decisões da política mundial. Devido ao crescente e cada vez mais facilitado acesso à informação, principalmente através da Internet, as narrativas começaram a ter uma enormíssima conotação estratégica na difusão de princípios, beneficiando ou desfavorecendo fortemente um determinado ponto de vista, muitas vezes recorrendo à manipulação de informação (nomeadamente às polémicas “fake news”), de modo a obterem um resultado que corresponda aos seus interesses.

A internet tornou-se um dos principais mobilizadores sociais globais dos nossos dias. Partindo da sua utilização qualquer individuo tem a possibilidade de se expressar de criar um impacto na sociedade; campanhas são lançadas; ações são tomadas e movimentos são postos em prática como forma de motivar reivindicações sociais significativas. Vários movimentos políticos emergentes na última década foram fatalmente atingidos influenciados pelo impacto dos media. Um dos mais polémicos casos de influência política surgiu no contexto da saída do Reino Unido da União Europeia – o denominado, Brexit. Neste sentido, milhões de pessoas foram persuadidas e mobilizadas, recorrendo à internet (e essencialmente às redes sociais) para se manifestarem em relação ao tema. Múltiplas análises da influência dos media em relação ao Brexit foram profundamente estudadas para que fosse possível perceber a dimensão do seu impacto nas decisões políticas dos eleitores britânicos.

Segundo diversas pesquisas, os apoiantes do Brexit formulavam discursos persuasivos mais poderosos recorrendo essencialmente ao apelo emocional (que regra geral geram mais apoiantes do que argumentos baseados em medidas económicas e políticas concretas), captando simultaneamente uma mensagem mais intuitiva e direta. Mostraram-se também consideravelmente mais ativos no uso dos media, dominando plataformas sociais como o Facebook, o Twitter e o Instagram, atraindo eleitores indecisos. Por exemplo, procedendo à análise de mais de 18 mil usuários e 30 mil posts, verificou-se que existiam duas vezes mais adeptos do Brexit tanto no Instagram como no Twitter, e cinco vezes mais ativos do que os apoiantes do Remain, para além de terem recebido 26% mais de likes e 20% mais comentários, integrando igualmente hashtags como “#Brexit”; “#Beleave” e “#VoteLeave”. Em contraste, os apoiantes do Remain recorreram a argumentos racionais e concretos, com enfoque nas repercussões económicas e políticas que a saída do Reino Unido da UE poderiam representar para o país, bem como os custos que essa decisão implicaria para as famílias britânicas.
Os assuntos que mais preocupavam e dividiam os cidadãos Britânicos, debruçavam-se essencialmente nas temáticas da imigração e da economia do país, principalmente devido à construção da (falsa) ideia de que a independência político-económica britânica ficou comprometida a partir da adesão à União Europeia. Com isto, o interesse dos meios de comunicação social sobre estes assuntos aumentou consideravelmente durante a campanha. A azafama que se gerava em torno do tema e as profunda divisões ideológicas alarmantes que invadiram a sociedade Inglesa, levaram a que muitos eleitores perdessem a confiança no discurso político em geral, aumentando os receios pelas consequências que o futuro das decisões pudesse trazer.
“The public vote for Brexit was anchored predominantly, albeit not exclusively, in areas of the country that are filled with pensioners, low-skilled and less well- educated blue-collar workers and citizens who have been pushed to the margins not only by the economic transformation of the country over recent decades but also by the values that have come to dominate a more socially liberal media and political class. In this respect the vote for Brexit was delivered by the ‘left behind’—social groups that are united by a general sense of insecurity, pessimism and marginalisation, who do not feel as though elites, whether in Brussels or Westminster, share their values, represent their interests and genuinely empathise with their intense angst about rapid social, economic and cultural change.”
(J. Goodwin and Heath; The 2016 Referendum, Brexit and the Left Behind: An Aggregate-level Analysis of the Result; 2016; p.9)
O processo de promoção dos media fora relativamente simples: primeiramente criando um conteúdo provocativo, capaz de atrair a atenção da comunidade internacional; publicar em todas as plataformas de comunicação disponíveis (Internet, redes sociais, canais televisivos, jornais etc…) e finalmente, promover ao máximo esse mesmo conteúdo, garantindo que teria o máximo de adesão possível (induzindo à partilha e atribuição de likes a conteúdos específicos, ou direcionando público para sites de apoio à saída do Reino Unido). Para além de todas as motivações políticas, outro fator que contribuiu para persuadir os resultados das eleições deveu-se ao facto de a campanha “Leave EU” ter tido consideravelmente mais financiamento do que o movimento “Remain”, contando com o fornecimento de quantias consideráveis por parte de bancos, bem como doações generosas por parte de apoiantes da causa.

Após as eleições e a constatação dos resultados (52% para a saída e 48% para a permanência), vários cidadãos continuaram a recorrer às plataformas sociais para se manifestarem – uns em jeito de celebração, outros em jeito de revolta, frustração e tristeza – incorporando, mais uma vez, uma forma eficaz de mobilização social.
Partindo da teoria construtivista das Relações Internacionais, o impacto dos media relativamente ás questões do Brexit, reflete-se na influência da construção e formação de determinadas ideias e princípios políticos numa sociedade. Assim, com o grande alcance que estas plataformas sociais conseguem atingir, torna-se relativamente simples criar uma realidade universal, motivando utilizadores de todo o mundo a formarem uma determinada ideia, quer corresponda à realidade, quer não. Um exemplo concreto deste tipo de construção pode verificar-se no contexto das várias histórias que foram produzidas, particularmente por Breitbart, com o objetivo de alimentar o medo da imigração, criando a imagem da UE como um instrumento de erradicação da soberania britânica. A teoria construtivista também pode ser estabelecida recorrendo a formas de manipulação de informação como o clikbait ou seja, noticias com títulos extraordinários, que mesmo sendo total ou parcialmente falsos e exagerados, motivam os cliques e as partilhas, originando a propagação de publicidade enganosa. Enquanto estratégia de manipulação para conquistar o apoio de mais eleitores, a Internet Reasearch Agency (IRA) usou uma série de contas falsas em todas as redes sociais fazendo-se passar por cidadãos britânicos e americanos, partindo de dados pessoais extraídos ilegalmente do Facebook, para promover mensagens de apoio tanto ao Brexit como a Trump.
Em suma, a emancipação e presença cada vez mais influente dos media na comunidade global, mudaram completamente a natureza das campanhas políticas da última década e continuarão a desempenhar um papel fundamental na divulgação de informação e formulação de narrativas e opiniões em futuras eleições por todo o mundo. À medida que cada vez mais as pessoas se tornam dependentes das tecnologias, passando uma parte significativa da sua vida quotidiana on-line, os mass media vão se tornando uma força progressivamente mais poderosa e determinante na formulação das convicções e posições do corpo social global, que consequentemente repercutirão com a tomada de decisões determinantes para a política internacional, seja para melhor ou para pior.
Esta questão da influência dos media nas negociações do Brexit será abordada na 40ª edição dos colóquios de Relações Internacionais que terão lugar na Universidade do Minho em Braga. Entre os quatro oradores presentes no Painel III, que terá como tema a “Influência dos media na política internacional: O caso da Europa e da América.”, estará presente Luís Barreira de Sousa, embaixador especial para questões de ciberesegurança, nomeado pelo governo Português como responsável pelo sistema de alerta de notícias falsas que União Europeia está a implementar.
Bárbara Mota – A79793
BIBLIOGRAFIA
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“Fake News: PSD quer ouvir no parlamento ‘ciberembaixador’ Luís Barreira de Sousa”; Diário de Notícias; 2019 (https://www.dn.pt/lusa/interior/fake-news-psd-quer-ouvir-no-parlamento-ciberembaixador-luis-barreira-de-sousa-10650581.html)
