A nova media: uma perspectiva geral do impacto das fakenews na política internacional

Introdução

A influência da media na política não é um fenômeno recente. A expansão da imprensa e dos jornais franceses no século XVIII foi uma característica marcante da Revolução Francesa. Aproximando-se da contemporaneidade, temos, no século XX, a media radialista e televisiva influenciando multidões. A contínua evolução dos meios de comunicação facilitou a propagação em massa de ideias e muitos estados ao redor do mundo instrumentalizaram-nos com fins de homogeneização cultural, criação de nacionalismos ou incentivos à guerra.

No entanto, essa evolução acelerada alterou os padrões de distribuição de informação ao tornar a internet acessível a grande parte da população mundial. Em primeira análise, essa nova ferramenta facilitou a reunião de grupos, a criação de movimentos, a disseminação de ideias dos que antes não tinham voz. Além disso, a democratização dos meios retirou das grandes media o monopólio da disseminação da informação, transformando cada indivíduo em receptor e emissor da mensagem. Essas duas mudanças no padrão midiático que se consolidara há mais de um século tiveram resultados impensáveis para a política internacional.

Esse artigo busca introduzir o tema ao leitor a partir de uma visão abrangente da problemática das fakenews no mundo. Por conseguinte, os exemplos aqui citados não serão aprofundados, e, por essa razão, é sugerido que essa leitura seja acompanhada da leitura dos demais artigos do blogue. Cada artigo dará a devida atenção a cada um dos temas mencionados neste texto.

A nova media e as fake news

No início da década de 2010, a Primavera Árabe abalou todas as estruturas do Oriente Médio; nas Manifestações de 2013 no Brasil, a estabilidade política foi quebrada de maneira tão severa que o país nunca mais se estabilizara; em 2016 as redes sociais tiveram papel crucial nas duas bordas do Atlântico Norte, elegendo Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e iniciando o processo de saída do Reino Unido da União Europeia; e por fim, o fenômeno Bolsonaro revolucionou as eleições brasileiras, elegendo em 2018, pela primeira vez, um candidato sem tempo de televisão, sem aliança partidária e que baseou sua campanha apenas nas redes sociais.

FOR USE AS DESIRED, YEAR END PHOTOS – FILE -In this March 1, 2011 file photo, an anti-government protestor reacts as he and other demonstrators shout slogans during a demonstration demanding the resignation of Yemeni President Ali Abdullah Saleh, in Sanaa, Yemen. (AP Photo/Muhammed Muheisen, File)

A ánalise desses fenômenos fez com que um dos pontos mais preocupantes para os especialistas fosse a grande disseminação de notícias falsas e a manipulação da informação nos últimos processos citados. Além da polêmica contratação da Cambridge Analytica nos EUA para mapear os interesses individuais e criar propagandas eleitorais personalizadas, tanto Bolsonaro quanto Trump foram acusados de uso em massa de fakenews em suas campanhas para enfraquecer os opositores. É por causa desse retrospecto preocupante que países ao redor do mundo procuram maneiras de frear o poder das fakenews nas redes. A União Europeia, por exemplo, está a implementar o Plano de Ação de Combate à Desinformação, que prevê, segundo o ministro de relações exteriores português, Augusto Santos Silva, “um sistema de alerta rápido, para que cada Estado-membro possa obter logo informação a partir do momento em que em Bruxelas ou em qualquer outra capital se identifique qualquer campanha em preparação ou em prática”.

Em Portugal, o Governo designou o embaixador Luís Barreira de Sousa como responsável em Portugal pelo sistema de alerta rápido de campanhas de desinformação da União Europeia. Durante a conferência “Combate às fakenews: uma questão democrática”, o embaixador explicou que “essa atividade maliciosa no ciberespaço se deslocou para as instituições democráticas e por isso a preocupação foi grande. Ataques dirigidos às instituições democráticas, aos seus protagonistas aos seus partidos políticos, às campanhas e aos sistemas de administração eleitoral podem ser gravíssimos porque não só podem prejudicar a integridade e a sinceridade do voto, como sobretudo podem minar a prazo a confiança dos cidadãos no Estado Democrático de Direito. Isto levou evidentemente à União Europeia e os Estados membros a tomar medidas preventivas tendo em vista os 50 atos eleitorais para o Parlamento Europeu.”

Tratar das fakenews requer a análise detalhada de diversos aspectos da sua existência, iniciando pelas suas várias faces. De acordo com Damian Tambini, autor do Media Policy Brief “Fake News: Public Policy Responses”, pode-se classificar as fakenews de seis maneiras diferentes, sendo elas: interferência externa em eleições domésticas a partir de fakenews; fakenews em busca de advertisements, paródias e sátiras; mal jornalismo; notícias ideologicamente opostas e, por fim; notícias que desafiam a autoridade ortodoxa.

Essa classificação, segundo o autor, é de extrema importância para guiar a busca por meios de combate às fakenews de forma a não cometer o erro de cercear a liberdade de expressão. A necessidade de criar meios de controle é evidente, mas a probabilidade de se criar um instrumento estatal ou supranacional de controle de informação oferece um risco grandioso às democracias de todo o mundo. Um exemplo dado pelo policy paper de cerceamento da liberdade de expressão foi o caso da China. Segundo o artigo, “the example of China’s crackdown on “online rumours” since 2013 is a useful illustration of the dangers of establishing structures of prepublication regulation and having too wide definition of what constitutes unverified fake news or “rumour. (…) Due to the lack of transparency it is impossible to know precisely what is blocked, but the evidence reported by Western journalists suggests that over blocking is rife.” (Tambini 2017).

Outro exemplo dado pelo paper foi o caso do Parlamento Italiano que, por sua vez, apresentou em 2017 um Projeto de Lei que visa criminalizar o ato de postar ou compartilhar notícias falsas, exageradas ou tendenciosas, prender os responsáveis por notícias falsas que possam incitar crimes ou violência e obrigar o monitoramento das notícias por parte das plataformas de redes sociais. No entanto, a lei enfrentou resistência pelo temor de que os termos “falsa, exagerada e tendenciosa” sejam facilmente manipulados, cerceando a Liberdade de Expressão.

Fakenews para a construção do interesse nacional

Ato pró-Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, Brasília.

Ao tentar abordar o fenômeno das fakenews a partir de um escopo teórico, torna-se evidente sua ligação próxima com a ideia de constituição de um interesse nacional. Segundo a professora Jutta Weldes (1996), esse interesse nacional é uma construção social criada através de significados culturalmente estabelecidos pela intersubjetividade com as quais o mundo, principalmente o sistema internacional e o lugar dos estados nele, são entendidos, emergindo da definição dos problemas percebidos por cada estado. A partir desse pressuposto, pode-se compreender como a propagação de notícias falsas obteve uma função essencial na política internacional do mundo globalizado. A manipulação da informação veiculada nas redes sociais é uma ferramenta poderosa na criação de medos, anseios, interesses e ódio, sentimentos esses que são facilmente manipuláveis por uma figura de poder. Ao analisar as eleições brasileiras de 2018, encontra-se uma rede extremamente desenvolvida de produção e compartilhamento em massa de informações falsas por meio de fotos alteradas, vídeos editados e textos tendenciosos de jornais sem nenhum comprometimento com a verificação dos fatos que possuíam o objetivo de fortalecer um grupo de interesse no cenário político brasileiro: os conservadores.

Para isso, o desprezo do brasileiro médio à classe política como um todo foi concentrado no Partido dos Trabalhadores e, de uma forma mais geral, na esquerda brasileira. Foi-se contruída assim uma narrativa baseada na dualidade vilanista da esquerda na qual o interesse nacional brasileiro clamava por uma volta a governos de direita que combatessem o progressismo social dos anos anteriores, a intervenção estatal contraproducente e o multilateralismo na política externa brasileira. O statesmen, no caso, Jair Messias Bolsonaro, foi a figura que concentrou todo o movimento que criara os novos meios para o aumento do poder do estado a partir do seu entendimento do mundo, especificando seus objetivos. Para isso, dinfundiu para os estados, atores não-estatais, movimentos sociais, público doméstico a nova identidade do Brasil. Segundo Weldes (1996),A sociedade civil é a esfera onde a luta para definir as categorias do senso comum se dá”, e essa luta Bolsonaro venceu.

Conclusão

Tendo como base todos os fatos aqui expostos, é notável a importância do estudo da influência dos media pela sua força na definição dos interesses nacionais, e consequentemente, na política internacional. Por essa razão, concebe-se como um privilégio a reunião de figuras de notável saber para a discussão e aprofundamento do tema no 3° painel dos Colóquios de Relações Internacionais, sendo dever de cada aluno do curso a participação nesse projeto acadêmico tão valioso para o processo de capacitação profissional para o trato de questões futuras em nossas áreas de atuação.

Referências Bibliográficas

Luís Barreira de Sousa, embaixador para a ciberdiplomacia, na conferência “O Combate às Fake News – Uma questão democrática”: https://www.msn.com/pt-pt/motor/videos/lu%C3%ADs-barreira-de-sousa-embaixador-para-a-ciberdiplomacia-na-confer%C3%AAncia-%E2%80%9Co-combate-%C3%A0s-fake-news-uma-quest%C3%A3o-democr%C3%A1tica%E2%80%9D-editado/vp-BBTUWDO

União Europeia avança com sistema de deteção de campanhas de desinformação: https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/noticia?i=uniao-europeia-avanca-com-sistema-de-detecao-de-campanhas-de-desinformacao

Embaixador Luís Barreira de Sousa nomeado responsável pelo sistema de alerta para fake news:
https://expresso.pt/politica/2019-01-21-Embaixador-Luis-Barreira-de-Sousa-nomeado-responsavel-pelo-sistema-de-alerta-para-fake-news#gs.9tnbsx

Constructing National Interest: Weltes, Jutta. “Constructing National Interests”. 1996. European Journal of International Relations 2; 275 . acesso em 04 de maio de 2019. DOI: 10.1177/1354066196002003001

MEDIA POLICY BRIEF 20 Fake News: Public Policy Responses:
Tambini, D. (2017). Fake News: Public Policy Responses. Media Policy Brief 20. London: Media Policy Project, London School of Economics and Political Science. http://eprints.lse.ac.uk/73015/1/LSE%20MPP%20Policy%20Brief%2020%20-%20Fake%20news_final.pdf

Manifestação pela renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh, em Sanaa, Iêmen. 01/03/2011. Foto: Muhammed Muheisen/AP

Ato pró-Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, Brasília DF: https://www.politize.com.br/primavera-arabe/

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