Nos passados dias 8 e 9 de maio, realizou-se 40ª edição dos colóquios de Relações Internacionais. No âmbito do Painel III: “Influência dos media na política internacional: O caso da Europa e da América.”, a Universidade do Minho em Braga, teve a oportunidade de receber três oradores muito prestigiados e admirados pela comunidade internacional: o embaixador especial para questões de ciberesegurança, Luís Barreira de Sousa; a atual embaixadora da Finlândia em Portugal, Tarja Laitiainen; a doutoranda no Leuven Center of Global Governance Studies (GGS), Eva Claessen e Mohamed-Raja’i Barakat, atual colaborador com vários emissores televisivos como o European Affaires e o Euro-Arab relation expert.
Nas suas intervenções, os oradores fizeram questão de frisar a importância e o enormíssimo impacto de os media conseguem provocar na sociedade e consequentemente na política internacional. Luís Barreira de Sousa destacou a relevância da ciberdiplomacia e das questões fulcrais que com ela surgem, principalmente no que diz respeito à formulação de leis internacionais capazes de governar e regular os conflitos no ciberespaço. Em 2015, um documento político fora assinado, estipulando que as leis internacionais seriam igualmente aplicadas no ciberespaço. No entanto quando se voltaram a reunir em 2016 e 2017 os resultados pretendidos com a assinatura do documento não haviam sido atingidos.

Foi então criado pela União Europeia um plano de sistema de alerta de notícias falsas. Como esclarecido pelo orador, o designado Rapid Alert System assenta essencialmente na partilha de informação entre estados membros da União Europeia, de modo a estes serem notificados sempre que sejam detetadas campanhas de desinformação (partindo de fake news ou por via de manipulação da opinião pública), tendo sido igualmente criadas equipas inseridas no Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), com vista a identificarem movimentos organizados contra a UE e de existirem casos de desinformação que afetem um grande número de estados. Nesse caso, serão tomadas medidas de ação comum, o que representa também um grande passo para fomentar a cooperação, apesar da construção da confiança mútua ainda ser um processo delicado, visto que ainda são temas muito recentes. Devido a vários exemplos de sucesso que as campanhas de fake news representaram para o enviesamento de eleições no passado, o Parlamento Europeu pretende evitar ao máximo este fenómeno para que as eleições sejam democraticamente justas, promovendo igualmente medidas de proteção de dados pessoas nas redes sociais.

Esta questão é facilmente aplicável ao exemplo da influência dos media nos processos de negociação do Brexit. Sendo um assunto tão controverso e marcante para o futuro da União Europeia, bem como para os estados membros que a constituem. O Brexit foi um caso em que os grandes grupos de interesse, grupos sociais, influenciadores e os media, divulgaram as suas opiniões e argumentaram a favor da posição que lhes foi mais politica, económica e socialmente conveniente. Sendo os media um grupo de influência com impacto e alcance brutal, a sua prioridade será acima de tudo utilizar as suas plataformas como um meio, sendo fundamentalmente usadas com o objetivo de direcionarem o seu público alvo para a formulação de uma determinada realidade que lhes é benéfica, e não necessariamente com o intuito de transmitir a informação de modo transparente e imparcial. As redes sociais, como refletido na entrada anterior, desempenharam um papel decisivo no que toca aos resultados eleitorais de todo o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Portanto, não estamos perante um nível de influência mínimo, mas sim que toma repercussões significativas tanto nas campanhas eleitorais como para o futuro da ordem política mundial.

Partindo da reflexão de Tarja Laitiainen, devido à abundância de informação que os jornalistas possuem, a cooperação com o setor é fundamental, podendo trazer muitos benefícios relativamente à troca de informação, ajudando bastante a complementar o trabalho dos internacionalistas de modo a que estes consigam simultaneamente desempenhar melhor as suas funções. Existe necessidade de serem criadas políticas mais transparentes, mais críticas e consequentemente jornalistas especializados em notícias falsas, que entendem o que está realmente a acontecer para que possam transmitir informação com a devida veracidade e imparcialidade.

O acesso cada vez mais rápido a todo o tipo de informação motiva à construção de uma realidade própria criada pelos media, que depois se alastra a toda a comunidade global, criando ideias erradas dos factos que se sucederam. Este é um dos sentidos para o qual a teoria do construtivismo pode ser perfeitamente aplicada em problemas concretos e emergentes nas Relações Internacionais. Com a questão das fake news e do clickbait, bem como toda a informação que é manipulada para tentar transmitir uma ideia destorcida da realidade, é muito fácil sermos dissuadidos a interpretarmos fenómenos políticos da maneira que as narrativas nos são apresentadas. Claramente na atualidade, o principal transmissor de notícias é a internet, relatando os mais recentes acontecimentos ao segundo, representando simultaneamente um instrumento de difusão de informação com um alcance global, tal como fundamentava a oradora Tarja Laitiainen:
“The news that you see on a potential catastrophe come out in the news in a way which is not verified […] With the internet and the social media that is something which can be very much amplified. It’s not just a local news paper, it is all over the place.”.
Para novas questões no âmbito da investigação acerca deste tema podemos destacar algumas fundamentais, mas que simultaneamente se tornam muito complexas: Como podemos controlar estes fenómenos? Que tipo de controlo é necessário e que instrumentos podem ser utilizados para garantir que as informações divulgadas sejam de facto verídicas? Caso exista algum tipo de restrição à partilha e publicação de informações, até que ponto é que esse ato não representa um entrave à liberdade de expressão? Se a divulgação de notícias falsas pode pôr em causa a soberania e legitimidade de um estado, de que modo podemos desmistificar facilmente essas informações? De que modo podem comprometer os nossos valores políticos, a estabilidade e que consequências repercutiriam na nossa sociedade?

As fake news continuam a contribuir para as falhas de informação e a chegar a todos os cantos do mundo. Da mesma forma, as redes sociais em geral continuam a ser uma motivação e uma influencia social muito importante. Neste sentido, visto que (principalmente nas redes sociais) o fator “liberdade de expressão” continua a ser fulcral na nossa sociedade, mas principalmente sendo a internet um mecanismo recente, complexo e difícil de controlar, não existe muito espaço para ações preventivas. Os problemas de desinformação que ocorrem devem-se muito também à arquitetura da própria internet, sendo que podem ser iniciados por qualquer pessoa, a precessão da fonte e do alvo torna-se bastante árdua. Estas ações podem também representar consequência que vão muito para além da influência eleitoral e sabotagem de informação. Podem facilmente traduzir-se em ameaças à soberania e integridade dos estados, sendo que certos atores, como é o caso da Rússia, por exemplo, tentam apoderar-se de toda a informação para conseguir descobrir as vulnerabilidades dos restantes atores, para que seja mais fácil exercer um certo poder sobre eles, manipulando-os e atacando-os. Este painel, e a forma como estas temáticas foram abordadas pelos oradores, contribuíram bastante para o esclarecimento de várias questões fulcrais, para o entendimento da situação real e do seu impacto na nossa sociedade neste momento.