40º Colóquios das Relações Internacionais – Influência dos Media na Política Internacional: Fake news

No dia 9 de maio de 2019, durante o 40º aniversário dos Colóquios de Relações Internacionais, o Painel III- Influência dos Media na Política Internacional: O caso da Europa e da América, contou com a presença dos excelentíssimos convidados Tarja Laitiainen, embaixadora finlandesa em desde 2016;  Luís Sousa, embaixador especial para questões de cibersegurança; Eva Claessen, estudante em PhD na  Leuven Centre for Global Governance Studies (GGS) e  Centre for Russian Studies at the University of Leuven; e por último Moahmed Barakat, especialista em assuntos europeus e relação euro-árabe.

A sessão abordou, deste modo, a influência dos media, nomeadamente o impacto e propagação das fake news, questões de cibersegurança e política Internacional, finalizando com iniciativas que propõem medidas destinadas a combater fenómenos de desinformação, ameaças à cibersegurança e aumentar a confiança da população mundial nos media, em geral.

Atualmente, a Internet e as redes sociais tornaram-se plataformas de partilha de informação e redes de comunicação importantíssimas devido à sua natureza crescente, e dinâmica, englobando debates públicos e disputas de narrativas, que levam à busca de hegemonias na política. Essa realidade abre espaço para discussões legítimas, mas também para discursos não legítimos e não factuais (fake news). [1]

“Misinformation and disinformation, often in the form of fake news disseminated on social media, are proliferating in the “post-truth” era, with profound implications for public and policy discourse, political accountability and integrity, elections and governance.” [2]

Moahmed Barakat, Luís Sousa, João Palmeira (mediador) Tarja Laitiainen e Eva Claessen – 40º aniversário dos Colóquios de Relações Internacionais o painel III- Influência dos Media na Política Internacional: O caso da Europa e da América

Tarja Laitiainen afirma que durante a sua longa carreira diplomática, devido ao desenvolvimento tecnológico de transmissão de informação, nomeadamente nos media, nas últimas décadas, levou a uma aproximação do mundo político e diplomático às plataformas de informação (fenómeno que na década de 90 iniciou com uma certa obrigação diplomática de transparência com os media, originando uma certa abertura).

Deste modo, a dinâmica criada entre a politica e os media, acoplado às consequências de uma sociedade dependente das tecnologias de comunicação (acesso facilitado e rápido às plataformas de comunicação por parte da sociedade civil) fez com que se criasse nos media um excesso de informação, sem instrumentos de filtragem e verificação, dando origem às fake news.

“The news aren´t often verified. That´s ours and journalists jobs” pelo que “hoje em dia o efeito media e fake news é amplificado com as redes sociais.”.

Tarja Laitiainen

Como já mencionado no post “Influência dos Media na Política Internacional – Caso Eleições Brasileiras de 2018”

“..and mirroring the spread of misinformation (or so-called “fake news”) elsewhere – Bolsonaro’s campaign for the presidency was bolstered by a successful and pervasive misinformation campaign by his supporters, primarily on WhatsApp, which may have even swung the election in his favour.” [3] (Daly, T. M..2019:21)

O recurso a plataformas digitais por atores propagadores de valores antidemocráticos fez com que a sua expressão e abrangência fossem alargadas e potenciadas de forma a alterar a identidade de uma nação (Teoria Construtivista: media como agentes construtores do panorama político internacional). Através deste caso, pode-se constatar o poder de influência dos media em preferências eleitorais e consequentemente na Política Internacional.

Influência dos media em campanhas eleitorais.

Este fenómeno foi também corroborado pelo embaixador Luís Sousa, responsável português no plano de Ação da União Europeia de combate à desinformação que afirma o uso das redes sociais para influenciar preferências nas eleições ou referendos” como o caso do Brexit, eleições norte-americanas e brasileiras.

Pelo que, Luís Sousa se fundamentou no “uso de ferramentas dos media e redes sociais durante as campanhas eleitorais em países como a Rússia, Geórgia, etc.… em matérias de fake news e campanhas de desinformação providas pelas media russos.” e também referenciou “o grau de desconfiança da população nos mecanismos de reprodução da realidade devido  ao fenómeno fake news, manipulação de imagens  sobre populismos na Europa.” e a falta de resposta e/ou resposta lenta das instituições europeias devido à desconfiança de alguns estados-membros têm na partilha de informação dos seus serviços secretos, receando a sua segurança cibernautica e nacional.

The Market of Fake News. in FAKE NEWS, SOCIAL MEDIA AND POLITICS. Collegue of Comunications – Center for Mobile Comunications Studies. publicada a 26 de novembro de 2018 . Retirado de http://sites.bu.edu/cmcs/2018/11/26/fake-news-social-media-and-politics/

O processo de regulação de conflito do espaço cibernáutico é bastante complexo, pelo que segundo Eva Claessen, terceira oradora dos 40º Colóquios de Relações Internacionais (9 de maio de 2019):

“Desinformações e ameaças à cibersegurança, caracterizam-se por serem difíceis no rastreamento e punição.”

“A descentralização das redes sociais permite o uso e abuso por parte de grupos estadais e não estadais, sendo importante analisar a arquitetura da Internet. Os Estados detêm a função de prover cibersegurança e de aplicarem incentivos à não desinformação e não disseminação de fake news.”

Os Estados detêm a função de prover cibersegurança e de aplicarem incentivos à não desinformação e não disseminação de fake news.”

Indo de encontro aos argumentos apresentados, Moahmed Barakat foi ainda mais incisivo acerca da influência dos media na política Internacional quando afirmou:

“Media are dangerous. You can see five or six groups that control our newspapers and TV. They choose carefully which person will tell the populations what they want. We are all being manipulated.”

“Images are strong and powerfull, and they can be manipulated.”

Christyn, Royce. 2014.The Mainstream Media Is Fake 6 Examples of Media Manipulation. Publicado em 28 de novembro de 2014. Retirado de https://newspunch.com/the-mainstream-is-media-fake-6-examples-of-media-manipulation/

Após os argumentos apresentados pelos referidos oradores, a sessão contou ainda com uma breve discussão onde se abordou a melhor forma de controlar as fake news.

“How to control fake news?”

“Firstly, people have to understand that opinions are not news or fake news.”

Tarja Laitiainen

  • Abrir fóruns de discussão sobre fake news e manipulação dos media;
  • Investir na educação e formação de população e classe jornalística “a recorrer e procurar fontes seguras” (Tarja Laitiainen e Eva Claessen);
  • Restaurar a confiança nos media;
  • Reagir rapidamente a todos os impactos das fake news.
  • Definir um balanço entre segurança e liberdade no espaço cibernáutico.

“Information and knowledge are the foundational political resources at citizens’ disposal. When those resources are too heavily populated with misinformation; disinformation; propaganda; or conspiracy theory, individual agency is profoundly diminished and informed policy dialog, meaningful political accountability, and healthy democracy become virtually impossible.” [2]

Perguntas para o futuro:

  1. Sendo a evolução tecnológica o motor de incentivo a uma maior abrangência e velocidade de propagação de informação na internet e outras plataformas mediáticas como a TV. Como se conseguirá regular e monitorizar a segurança cibernautica sem denegrir liberdades de expressão fundamentais num Estado de direito democrático?  
  2. Sendo o Estado, segundo Eva Claessen, o principal responsável de promover cibersegurança e combate a fake news, como poderá este aconselhar fontes seguras de partilha de informação sem enviesar a opinião pública para certos canais, programas, jornais, sites, exercendo um certo tipo de manipulação?

Referências Bibliográficas:

[1] Coordenação Marco Aurélio Ruediger. 2017.” ROBÔS, REDES SOCIAIS E POLÍTICA NO BRASIL Estudo sobre interferências ilegítimas no debate público na web, riscos à democracia e processo eleitoral de 2018” Rio de Janeiro: FGV, DAPP. ISBN: 978-85-68823-41-5

[2] Landon-Murray, Michael; Mujkic, Edin; Nussbaum, Brian. 2019.” Disinformation in Contemporary U.S. Foreign Policy: Impacts and Ethics in an Era of Fake News, Social Media, and Artificial Intelligence”. Public Integrity, 0: 1–11. DOI: 10.1080/10999922.2019.1613832

[3] Daly, Tom, Gerald. 2019.” Populism, Public Law, and Democratic Decay in Brazil: Understanding the Rise of Jair Bolsonaro”. 14th International Human Rights Researchers’ Workshop: ‘Democratic Backsliding and Human Rights’, organised by the Law and Ethics of Human Rights (LEHR) journal, 2-3 January 2019.pp1-22

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