Era final de 2013 e os protestos irromperam em Kiev. Entre outras coisas, os manifestantes queriam laços mais estreitos com a União Europeia. Os protestos vêm em resposta ao facto de o governo ucraniano ter encerrado os preparativos para a assinatura do Acordo de Associação (AA) e Acordo de Comércio Livre Aprofundado e Abrangente (DCFTA) com a União Europeia. A decisão foi tomada, segundo o governo ucraniano, com o pretexto de analisar completamente o impacto do acordo planeado sobre a produção industrial e o comércio com a Rússia. A opção do governo ucraniano, na preferência por uma melhor relação com a Rússia, reforçando os laços entre os dois países em vez de iniciar as negociações para a entrada do país na União Europeia, causou grande descontentamento no povo, e moveu massas populares que só terminaram com a demissão do governo ucraniano, no período de tempo que ficou conhecido como A Revolução Ucraniana de 2014.
Antes que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, empregasse o termo, e mesmo antes dos “trolls” russos tentarem influenciar as eleições de 2016, o problema das notícias falsas ou “fake news” começou na Ucrânia, com propaganda do vizinho do Leste. A crise na Ucrânia acentuou a posição da televisão russa como o maior ativo do governo na guerra de informação. Á medida que as tensões começavam a aumentar no leste da Ucrânia, as autoridades ucranianas começaram a suspeitar que os canais russos estavam a passar uma imagem negativa e não verídica da Ucrânia e da Europa, criando divisões entre os campos pró-Ucrânia e pró-Kremlin. Por outro lado, a internet permitiu que outros jogadores desafiassem a narrativa Russa, fornecendo contra narrativas e desmascarando informações distorcidas e não verdadeiras. Contabilizando a nova ecologia da media através da qual as narrativas estratégicas são criadas e interpretadas, pretendo dar introdução ao que será uma análise ás narrativas de notícias alegadamente falsas, “fake news”, percebendo as histórias fabricadas como projeções extremas das narrativas estratégicas da Rússia, assim com as tentativas da verificação ucraniana dos factos, como as “fake news” foram usadas como “arma” na crise ucraniana e que efeitos estas tiveram sobre o desenrolar e até o início do conflito.
Nos Colóquios das Relações Internacionais, a realizarem-se na Universidade do Minho dias 8 e 9 de maio, serão analisadas as transformações que têm vindo a mudar a postura e narrativa russa nos últimos anos, que para alguns investigadores e analistas das Relações Internacionais tem semelhanças ás adotadas pelo país na Guerra Fria. O mundo económico e da informação são os maiores demonstradores de poder para um estado no mundo em que vivemos, e a compreensão de Moscovo sobre estes factores projetou-se de forma clara no caso ucraniano. Numa primeira instância, e como já referido antes, foi necessário assegurar o parceiro comercial e vencer “esta batalha” perante o “inimigo económico” de ocidente do continente, a EU. Numa segunda instância e perante as revoltas populares na Ucrânia, foi necessário desenvolver e fazer crescer a capacidade de influenciar não apenas a opinião pública na Ucrânia, mas a opinião pública em muitos outros países europeus.

Bibliografia:
- Rotaru, Vasile. “Forced Attraction?” Problems of Post-Communism65, no. 1 (2017): 37-48. doi:10.1080/10758216.2016.1276400.
- Khaldarova, Irina, and Mervi Pantti. “Fake News.” Journalism Practice10, no. 7 (2016): 891-901. doi:10.1080/17512786.2016.1163237.
- Amadeo, Kimberly. “How Ukraine’s Crisis Threatens the EU.” The Balance. February 25, 2019. Accessed April 30, 2019. https://www.thebalance.com/ukraine-crisis-summary-and-explanation-3970462.
- Kragh, Martin, and Sebastian Åsberg. “Russia’s Strategy for Influence through Public Diplomacy and Active Measures: The Swedish Case.” Journal of Strategic Studies40, no. 6 (2017): 773-816. doi:10.1080/01402390.2016.1273830.
- Haigh, Maria, Thomas Haigh, and Nadine I. Kozak. “Stopping Fake News.” Journalism Studies19, no. 14 (2017): 2062-087. doi:10.1080/1461670x.2017.1316681.
- Krug, Gary J. “Fake Information, Fake Warfare, and Real Destabilizations of News.” Russian Journal of Communication9, no. 2 (2017): 201-03. doi:10.1080/19409419.2017.1323175.