A crise da Ucrânia é uma luta de poder entre fações dentro da Ucrânia. Um quer se alinhar com a União Europeia e o outro com a Rússia. A atual crise despoletou em 7 de junho de 2014, o presidente pró-Ocidente Petro Poroshenko substituiu o presidente pró-russia, Viktor Yanukovych. Em 12 de setembro de 2014, a Ucrânia aprovou um acordo comercial com a UE que removeu as tarifas de exportação. Ela concordou em adiar sua implementação por ano para evitar sanções de energia russas e até mesmo ataques. O presidente da Ucrânia, Poroshenko, queria manter o cessar-fogo. A atual crise eclodiu em março de 2014, quando forças especiais russas ocuparam a península da Crimeia, na Ucrânia. A Rússia alegou que estava protegendo o seu porto de acesso ao Mar Negro. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, planeou o desenvolvimento das reservas de gás natural da Crimeia em dois anos, em parceria com empresas norte-americanas. Se a Ucrânia tivesse conseguido isso, a Rússia teria perdido um de seus maiores clientes. Entre 2014 e 2018, um conflito militar entre soldados ucranianos e separatistas apoiados pela Rússia continuou no leste da Ucrânia. Mais de 10.000 pessoas foram mortas.

As “fake news” foram um ativo muito importante no desenrolar deste conflito. Transformaram por completo tanto o desenrolar da guerra como os atores interventivos da mesma. A crise ucraniana passou de uma guerra de guerrilha para uma guerra de informação. O conflito entre a Rússia e a Ucrânia pode ser analisado como uma instância em que a Internet reforçou o poder dos atores políticos para criar desinformação. Mas não é mais apenas o monopólio dos media apoiado pelo Estado que produz e dissemina propaganda. Os próprios cidadãos participam ativamente de sua própria privação de direitos utilizando as redes sociais para gerar, consumir ou distribuir informações falsas, contribuindo para uma nova ordem em que a desinformação adquire cada vez mais autoridade. Este ensaio segue as práticas de desinformação através da transição da transmissão para as redes sociais nos tempos pós-soviéticos e teoriza como a coexistência de uma nova forma de produção de propaganda, ou melhor no ressurgimento e aperfeiçoamento de uma arma usada por parte da União Soviética na guerra fria, e assim aumenta a nossa compreensão de cenários futuros, inclusive nas democracias ocidentais.

Após esta curta e pouco detalhada síntese do conflito abordado, irei tentar ao longo do artigo esclarecer várias perguntas como o porquê de a crise ter seguido um caminho tão violento, o porquê da extrema importância da Ucrânia para a Rússia e para as elites do Kremlin, e em especial dar ênfase á utilização das “fake news” por parte da Rússia neste conflito. Nos colóquios das Relações Internacionais, realizados dias 8 e 9 de Maio, na Universidade do Minho, a crise ucraniana e as “fake news” não fora abordada diretamente, mas foram referidos, abordados e esclarecidos vários conceitos, na política atual mundial que interpretados da forma correta se interrelacionam e podem até explicar a posição tanto russa como ucraniana na crise abordada. A importância dos media e a envolvência do jornalismo na diplomacia atual fora abordado nos Colóquios das Relações Internacionais. Interrelacionando com o tema de estudo, a Rússia percebeu o quanto a opinião pública e os medias podem influenciar o curso de um conflito seja armado seja diplomático, daí a utilização das “fake news” como arma na crise ucraniana. Como afirmou a Embaixadora Tarja Laitiainen “The news that you see in potential catastrophe are not a real representation of the real truth”, com esta afirmação pretendo demonstrar o quão importante e influentes são os medias e as redes sociais nos dias de hoje, antes já usados por todos os países como distribuição de informação de certa forma selecionada mas nunca antes usada como arma manipulativo num conflito direto. O outro conceito abordado, de forma mais abundante no Painel I dos Colóquios das Relações Internacionais da Universidade do Minho, do qual gostaria de dar algum destaque dada a sua importância para este tema, é o Multilateralismo. Como definiu o professor Zaki Laïdi “Multilateralismo é o conjunto de acordos entre países com o objetivo de responder a problemas que os países individualmente não conseguem resolver”. Em conjugação com o tema do multilateralismo definido e abordado pelo Professor Laïdi, o Professor Kai-Olaf Lang, também no Painel I, abordou a importância da geopolítica na política moderna, e introduziu o tema de novas esferas de poder ou influência, tema muito abordado na altura da guerra fria, que pode ressurgir nos dias de hoje. Segundo o Professor Lang, os erros dos EUA no Iraque e na Líbia permitiram um ressurgimento da Rússia e da China a nível das esferas de poder. A ligação dos conceitos abordados por estes dois peritos das Relações Internacionais entre outras áreas, com a crise ucraniana permite-nos entender a importância da Ucrânia para a Rússia, e o porquê de o Kremlin fazer todos os possíveis e impossíveis esforços para não permitir uma ligação entre a União Europeia e a Ucrânia, que resultaria num afastamento na aliança russo-ucraniana da parte Ucraniana.
“The news that you see in potential catastrophe are not a real representation of the real truth”
Em conclusão, tal como os políticos e investigadores das relações internacionais, mais em específico os que estudam a crise ucraniana, afirmam, a Ucrânia não foi apenas um palco de experiência de uma nova arma por parte da Rússia, as “fake news”, mas sim também uma demonstração de que Moscovo vê os fracassos dos EUA em situações como Iraque, Líbia, entre outros uma chamada para poder ter um papel mais ativo na política mundial. Não o compararia com a divisão de poderes da Guerra Fria, mas sim como uma nova Rússia, com novos objetivos e uma nova vertente onde o seu principal pretendente não é influenciar mudanças de regimes políticos, mas sim em construir uma esfera de influência em seu redor que lhe permita fazer parte de uma nova ordem mundial.
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